Um anónimo perguntou aqui no blog se será ou não demasiado precoce a competição para uma criança de 8 anos (ano em que as crianças iniciam a chamada "competição oficial"). Pareceu-me um assunto bastante interessante para debater e não sendo formado em psicologia, irei aqui colocar a opinião de quem diariamente convive com crianças.
Na minha opinião existe logo á partida uma confusão sobre o que é (ou devia ser) para estas crianças a "competição". O Campeonato que as crianças disputam semanalmente (organizado pela Associação de Futebol de Lisboa) deve ser levado pelos formadores/treinadores e pelos pais das crianças como sendo mais um exercício na semana de treinos e não como um verdadeiro jogo da 1ª liga. Devia ser esse o ponto de partida, e explico porquê e onde se enquadra a minha opinião na questão que me colocam.
Uma criança quando a chamam para ir para a escola, "compete" com os pais para que o deixe ficar mais um bocadinho na cama, ou pelo menos tenta não abrir logo os olhos para assim "ganhar" algum tempo dentro da sua cama antes de ter de se levantar. Na escola "compete" pela melhor e mais bem posicionada secretária na sala de aula. No recreio, nos intervalos, "compete" em todos os desafios ou brincadeiras com os seus colegas. "Compete" para ser o primeiro a arrumar tudo o que tem em cima da secretaria, dentro da mala, para sair da sala de aula em primeiro, para entrar no carro do pai primeiro do que aquele colega que vai de boleia com ele... No dia em que chega ao clube onde está inserido e á equipa onde ficará a crescer como atleta e pessoa (seja aos 4,aos 5, 6, 7 anos ou em que idade for) a criança tenta logo ganhar o seu espaço,"competindo" com os seus colegas de equipa pela atenção do treinador em cada momento, "compete" pala atenção dos próprios colegas em tudo o que faz, e até, pela atenção dos pais que estão fora do campo a ver os seus pequeninos a treinar. "Viste?! quando eu te fiz aquela finta, até o meu pai se começou a rir e a falar com o teu...".
Até aos 7 anos entram em "torneios" e "mundialitos". Pergunto eu, Nesses torneios não se ganha nem se perde? não se compete? Claro que sim. Para serem "titulares" nos "torneios" não se esforçam nos treinos "competindo" com os outros meninos para conseguirem uma posição nos jogadores que iniciam a partida? Claro que sim.
As crianças competem por instinto e não é o facto de estarem na competição da Associação de Futebol de Lisboa que vai fazer com que a competição seja maior ou mais intensa.. são as próprias crianças que o fazem. Aos 8 anos aparece uma nova fase no crescimento das crianças. Técnica e tacticamente crescem e fisicamente existe também uma evolução. Assim sendo é importante o campo ser maior, o tempo de jogo ser também maior e os desafios e objectivos mais complexos.. faz parte do crescimento do atleta/individuo. Dai ser importante que eles entrem num "torneio" um pouco mais complexo. Onde existem mais jogos, a organização é diferente, e os objectivos na própria competição também. Apenas isso.
Por vezes, são os formadores/treinadores e acima de tudo os pais, que ao verem a palavra "campeonato" se deixam levar pelo entusiasmo e transformam uma nova fase de formação dos miúdos em algo que os pressiona .
É lógico e deve ser sempre defendido que a vitoria é o objectivo de quando se compete, mas a meta tem de ser outra... A formação da criança enquanto atleta e pessoa.
Por tudo isto, não me parece que os atletas comecem realmente a competir "futebolisticamente" aos 8 anos, competem desde a primeira vez que "jogaram á bola", na rua, na escola, ou sozinhos apenas a dar toques... e defendo que em qualquer idade, fase de crescimento ou de aprendizagem, a competição, desde que lhes insira princípios, espírito de grupo, aptidões sociais, e muita diversão a fazer o que mais gostam... é a base do futebol.
Deixem-nos ganhar, perder, empatar, chorar, rir... e acima de tudo estejam lá para os ver. Porque eles iram sempre "competir" para vos agradar em cada vez que tocarem na bola.
Abraço e Bom Jogo
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
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